terça-feira, 8 de outubro de 2019

Crônica


Crônica sobre duas rodas. 
          
No colo da noite a brisa sutil cavalga um corcel negro à revelia da primavera quente tropical. De janela escancarada, meu peito nu e minhas pálidas faces recebem a benção do alívio. A noite insone por capricho e pelo excesso de ociosidade,  na prisão de uma cadeira de rodas no infortúnio da existência física.
Lembrando-me a tragédia que não poupou da morte um ser querido e uma condenação inesperada, ao ficar na dependência de outrem. Tento rebelar-me no intento de aliviar o sofrimento que me persegue, mas o espírito freia minhas palavras obscenas, impronunciáveis, de teor censurado, que ninguém é forçado a ouvir. Fenece o orgulho ferido pela impotência que me prostra e se curva à vontade do destino que aleatoriamente escolheu-me  como vítima, sem chance de reagir.
No lar que não se completa pela nulidade de um ser que outrora tinha vida plena e profícua, desdenhou da agenda do destino e agora chora inutilmente pelo retorno do que lhe foi arrebatado. Clamo à brisa que desliza no meu corpo e na minha alma, que não me abandone e me alivie sempre do calor dúbio que sinto. E me deixe o corcel negro para que eu me liberte do grilhão de rodas insensíveis, que ignoram meus gritos surdos de revolta e insatisfação incontidas.
A liberdade só tem valor para quem de um modo ou de outro, perdeu-a de forma ampla e irremediável, deixando a vida, para mim, sem sentido.
A tragédia deixa uma lição: de que somos grãos de areia diante da inexorabilidade do universo que se dilata sempre em direção ao nada.  Eterno, e que semeia sequelas naqueles que não o compreendem e nem aceitam suas razões pelas quais,  boas ou más, norteiam nossas escolhas e decisões.
Olho para o firmamento através da janela que deixa a brisa entrar, mas que eu jamais poderei sair, porém, vejo e concluo que lá nas estrelas está escrito que o destino de cada ser vivente está traçado, pois como tal, também somos da causa o efeito, e isso não vai mudar porque eu quero...
Antônio Ricardo Vieira - 08/10/2019