Incentivo à leitura século XXI
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Crônica
Crônica sobre duas rodas.
No colo da noite a brisa sutil
cavalga um corcel negro à revelia da primavera quente tropical. De janela
escancarada, meu peito nu e minhas pálidas faces recebem a benção do alívio. A
noite insone por capricho e pelo excesso de ociosidade, na prisão de uma cadeira de rodas no
infortúnio da existência física.
Lembrando-me a tragédia que não
poupou da morte um ser querido e uma condenação inesperada, ao ficar na
dependência de outrem. Tento rebelar-me no intento de aliviar o sofrimento que
me persegue, mas o espírito freia minhas palavras obscenas, impronunciáveis, de
teor censurado, que ninguém é forçado a ouvir. Fenece o orgulho ferido pela
impotência que me prostra e se curva à vontade do destino que aleatoriamente escolheu-me
como vítima, sem chance de reagir.
No lar que não se completa pela nulidade
de um ser que outrora tinha vida plena e profícua, desdenhou da agenda do
destino e agora chora inutilmente pelo retorno do que lhe foi arrebatado. Clamo
à brisa que desliza no meu corpo e na minha alma, que não me abandone e me
alivie sempre do calor dúbio que sinto. E me deixe o corcel negro para que eu
me liberte do grilhão de rodas insensíveis, que ignoram meus gritos surdos de
revolta e insatisfação incontidas.
A liberdade só tem valor para
quem de um modo ou de outro, perdeu-a de forma ampla e irremediável, deixando a
vida, para mim, sem sentido.
A tragédia deixa uma lição: de
que somos grãos de areia diante da inexorabilidade do universo que se dilata
sempre em direção ao nada. Eterno, e que
semeia sequelas naqueles que não o compreendem e nem aceitam suas razões pelas
quais, boas ou más, norteiam nossas
escolhas e decisões.
Olho para o firmamento através da
janela que deixa a brisa entrar, mas que eu jamais poderei sair, porém, vejo e
concluo que lá nas estrelas está escrito que o destino de cada ser vivente está
traçado, pois como tal, também somos da causa o efeito, e isso não vai mudar
porque eu quero...
Antônio Ricardo Vieira - 08/10/2019
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